quinta-feira, 10 de julho de 2008

Mar da Palha I : Para mais tarde recordar ...

Lisboa, 07 Mai (Lusa) - O ex-director da contabilidade da Expo-98, detido por tráfico de droga, é uma má memória para os sócios da Mar da Palha, que apesar de terem pago mais pelas casas devido à fraude de João Caldeira, gostam de viver na Expo.
Ainda à espera de recuperar os 2,5 milhões de euros que João Caldeira desviou para negócios próprios, e que eram oriundos de pagamentos dos sócios da cooperativa para a compra de terrenos, os moradores da mar da Palha ficaram surpreendidos com a recente detenção do ex-director da contabilidade e tesouraria da Parque Expo.
"Nunca pensei que ele [João Caldeira] fosse tão longe", contou à Lusa Américo Azevedo, que há dez anos dirige a cooperativa Mar da Palha e envidou esforços e negociações para o projecto não ter ido ao fundo, depois da fraude que foi detectada durante a exposição internacional.
Foi após a detenção de João Caldeira, a 08 de Agosto de 1998, que os cooperantes foram surpreendidos com o desvio de cheques que lhe entregavam como pagamento dos terrenos onde iam crescer dois empreendimentos; o Edifício Gil Eanes e o Condomínio Vasco da Gama.
"Na altura, foi muito difícil reunir a informação, pois nem sabíamos quem é que era sócio e que montantes tinham entregue, bem como para onde tinham ido", contou Américo Azevedo, que mora no Edifício Gil Eanes.
A fraude aconteceu porque João Caldeira era director da contabilidade e tesouraria da Parque Expo, movimentando milhões de euros (na altura escudos), e também vice-presidente do departamento de contabilidade da Mar da Palha.
Caldeira, que no ano da exposição apostara no negócio da pesca e congelação de marisco - investindo na empresa DICA, entretanto falida - precisava de muito dinheiro e foi precisamente aos cheques que os cooperantes lhe faziam chegar para pagamento dos terrenos (propriedade da Parque Expo) que o foi buscar.
Quando a Polícia Judiciária o confronta com o mandado de captura, a 08 de Agosto de 1998, João Caldeira já desviara 425 mil contos em cheques dos sócios da Mar da Palha.
Os cooperantes continuaram a investir nas construções - sem dúvida um bom negócio, hoje muito valorizadas -, pagando cerca de 25 por cento mais pelas casas.
Segundo Américo Azevedo, ainda está em curso um processo cível de responsabilidade civil, com vista aos cooperantes reaverem os 2,5 milhões de euros.
Dez anos depois, a Mar da Palha revelou-se um bom investimento imobiliário, onde os cooperantes gostam de viver.
"É bom viver no Parque das Nações, principalmente devido à proximidade do rio", disse Américo Azevedo.
Quanto a João Caldeira, está detido no Brasil e deverá ser julgado. O seu advogado no caso Expo/Mar da Palha, Costa Saldida, disse à Lusa, antes do seu constituinte ter sido detido e quando este estava "em parte incerta", que pouco ou nenhum contacto teve com ele, desde que saiu da prisão.
João Caldeira foi punido pela prática dos crimes de peculato, falsificação agravada, falsidade informática, abuso de poder, apropriação ilegítima de bens do sector cooperativo e por dois crimes de burla.
Dos sete anos a que foi condenado, viu reduzidos um ano e dois meses por via da lei da amnistia. Os primeiros oito meses de detenção foram cumpridos nas instalações da PJ. Seguiram-se 14 meses no Estabelecimento Prisional de Lisboa e o resto na prisão de Vale dos Judeus (Alcoentre).
João Caldeira tem ainda uma dívida cível por pagar à Parque Expo, no valor de 87.500 euros (17.500 contos).
SMM.
Lusa/Fim